Sábado, 10 de Março de 2007

OS MAIAS

 

 

 

 

 

ANA’KRÓNIKA.VIII

(ANA’KRÓNIKAS são relatos impossíveis de colocar rigorosamente no tempo, retirados da memória onde jazem sob grossas camadas de fantasia, não sendo, portanto, nem verdadeiros nem falsos...)

 

 

 

            Só posso dizer que não são esses Maias que estão a pensar. Era gente da nossa praça.

 

            Um dia os Maias ganharam, num bingo do Rádio Clube de Angra, porque era o bingo do Natal, um FIAT 850, acho eu!

 

            Mal luziram os primeiros raios do Sol da Primavera programaram um pic-nic para gozar o seu carro. Ao fim de uma manhã de sábado encheram o pequeno porta bagagem do Fiat com todos os equipamentos necessários e muitos petiscos que a mãe preparara desde a véspera. Com muita dificuldade meteram-se os quatro, o pai, a mãe, o filho e a filha dentro da viatura e pôs-se, então, a questão:

            -Vamos para onde?

 

            -Para o Monte Brasil-opinou imediatamente a senhora Maia.

 

            -Oh mãe! Então mais valia irmos a pé. Para os Bicoitos.-retorquiu o rapaz.

 

            -Não posso estar muito tempo à chaparia do sol.-protestou o pai.

 

            -Eu achava melhor irmos para a Lagoa das Patas. Há lá muitas mesas e sombra.-lembrou a miúda.

 

            -Nem pensar-saltou a mãe-está sempre cheio de gente e lixo.

 

            ...

 

            -Não. É muito húmido...

 

            -Não. Faz muito vento...

 

            -Não. Está sempre raso de moscas...

 

            Trinta minutos depois estavam finalmente todos de acordo: a fome falou mais alto e mesmo ali, no carro, à porta de casa, se fez um dificílimo pic-nic!

 

            Dalí em diante aquele carro foi usado exclusivamente para fins utilitários... como os carros oficiais...

 

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2007

O TRAUMA.

 

 

 

 

 

ANA’KRÓNIKA.VII

(ANA’KRÓNIKAS são relatos impossíveis de colocar rigorosamente no tempo, retirados da memória onde jazem sob grossas camadas de fantasia, não sendo, portanto, nem verdadeiros nem falsos...)

 

 

            A saudosa tia Conceição deve ter-no-las dado em Agosto porque foram prendas de anos.

            Muito brilhantes e diferentes de tudo o que já tínhamos visto até então: dois copos de “baquelite”. Um azul, o meu, o outro cor-de-rosa, o de minha irmã, de quem era madrinha.

            Cobertos por uma redoma transparente, também em “baquelite”, no interior da qual giravam quatro cavalinhos quando bebíamos pela “palhinha" que emergia dessa espécie de tampa. Fascinante! ...para aquele tempo!

            Passaram a dar-nos o café com leite naquelas pequenas maravilhas.

            O pior era que, com o calor, a bebida, ganhava exactamente o sabor correspondente ao cheiro do material dos copos! Era um horror! (quase tão mau como o próprio óleo de fígado de bacalhau).

            Depois de muitos protestos acederam a que usássemos os ditos copos apenas para bebidas frias. Até avariarem!

 

  

 

            Nunca mais consegui beber café com leite! Deve ser o meu único trauma...pelo menos que eu dê por isso...

 

 

 

 

 

 

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Terça-feira, 26 de Dezembro de 2006

O LICOR...

 

 

 

ANA’KRÓNIKA.VI

(ANA’KRÓNIKAS são relatos impossíveis de colocar rigorosamente no tempo, retirados da memória onde jazem sob grossas camadas de fantasia, não sendo, portanto, nem verdadeiros nem falsos...)

            Acho que não minto se disser que vi, um dia, quando era criança, o Menino Jesus da Tia Chica corar e virar a carinha para esconder um sorriso maroto, quando a ouviu gritar à janela para uma vizinha que acabara de passar:

           -Ah Etelvina, o meu Menino mija!

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Sábado, 25 de Novembro de 2006

GATO FEDORENTO!

 

ANA’KRÓNIKA.V

(ANA’KRÓNIKAS são relatos impossíveis de colocar rigorosamente no tempo, retirados da memória onde jazem sob grossas camadas de fantasia, não sendo, portanto, nem verdadeiros nem falsos...)

 

 

 

 

            Certo dia, um dos gatos que deambulavam lá pelo quintal, no seu afã incontornável de marcar território, salpicou o caderno de matemática que eu deixara momentaneamente num degrau da escada do jardim. Aquilo ficou uma peste! Protestei ruidosamente. Limparam-me a capa plastificada do caderno (raios! os cadernos não se podem lavar...) e borrifaram-no com água de cheiro americana. Ainda hoje, quando me lembro disto, sinto o odor acre-doce com que a coisa ficou e tendo a olhar à volta a ver se mais alguém o sente.

             As crianças daquele tempo eram bem menos traumatizáveis do que as de agora: não ganhei qualquer rejeição a gatos ou à matemática. Apenas alguma reserva em relação à água de cheiro americana. Até tolero o Gato Fedorento

           

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Publicado por anarka às 13:03
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Terça-feira, 25 de Abril de 2006

O PADRINHO...

 

 

ANA’KRÓNIKA.IV

ANA’KRÓNIKAS são relatos impossíveis de colocar rigorosamente no tempo, retirados da memória onde jazem sob grossas camadas de fantasia, não sendo, portanto, nem verdadeiros nem falsos...)

 

 

           

 

 

 

            O vizinho Barrote era perdido por matanças. O bom comer, o bom beber e a alegria que toda a matança proporcionava eram uma tentação insuperável.

 

            Não podia, portanto, o vizinho Barrote deixar de incentivar a família Pontes, co-inquilinos lá do prédio, a criar um leitãozinho para aproveitar o chiqueiro desabitado do quintal. Prometia todo o apoio na alimentação do animal e todas as diligências que haveriam de levar à inevitável matança.

 

            Eram abundantes as "lavagens" que o vizinho Barrote fornecia: os restos da comida das próprias refeições, as águas da lavagem das loiças, lâminas de barbear usadas, lâmpadas fundidas, conchas de lapas e cascas de santolas, latas de conservas, peúgas...

 

            Passaram meses e meses e o bicho pouco medrou. Triste, inchado e guedelhudo , assemelhava-se a uma bola de basquete felpuda. Não era bonito de ver! Era certamente da raça do bicho, costumava o vizinho esclarecer os proprietários do infeliz!

 

            Em Novembro fazia frio e o leitão completava ano e meio de idade. O vizinho Barrote, desconfiado quanto a melhorias e impaciente quanto à festança, resolveu, na qualidade de “padrinho” do porco, aconselhar os Pontes a fazer a matança no 1º de Dezembro.

 

            Na madrugada do dia foram ao curral e levaram o “afilhado” ao colo para o fundo do quintal, deitaram-no sobre a cadeira da avó Pontes e às 6 e meia em ponto espetavam-lhe a faca nas goelas. Acto contínuo o bicho como que esvaziou ficando-se pela metade do volume que tivera enquanto vivo. O vizinho Barrote explicou imediatamente que era, afinal, um problema de gazes!

 

            Num ápice, sob as instruções do “padrinho”, sucederam-se as operações de limpeza do cadáver...entretanto, o próprio já cozinhava os primeiros petiscos: uma especialidade confeccionada com a focinho e os pezinhos do falecido. Cheirava maravilhosamente e, à conta disso, serviram-se várias rodadas de bom vinho.

 

            Por volta das quatro horas da tarde não restava uma febra de carne nem um pingo de aguardente e toda a gente se sentia muito feliz. As crianças jogavam à bola com a pequena beXiga do desditoso animal. Os mais idosos jogavam ruidosamente à “sueca”. À parte, o vizinho Barrote tentava entusiasmar o Pontes a arranjar-lhe um “afilhado” novo...

 

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Quinta-feira, 13 de Abril de 2006

Devoção, Fé e desembaraço.

 

ANA’KRÓNIKA.III

(ANA’KRÓNIKAS são relatos impossíveis de colocar rigorosamente no tempo, retirados da memória onde jazem sob grossas camadas de fantasia, não sendo, portanto, nem verdadeiros nem falsos...)

 

            A Tia J’aquina , uma criatura de fé à prova de bala e devoção insaciável, aproveitava todas as oportunidades para aplicar tais predicados.

            Por maioria de razão, fazia da caminhada dos 600 metros que distava sua casa à ermida do Padre Manuel Maria do Couto onde ia ouvir a missa dominical, uma peregrinação pessoal que cumpria orando fervorosamente terços a meia voz.

            Graças à passada curta e lenta que as pernas lhe permitiam e à técnica verdadeiramente profissional que utilizava nessa tarefa, conseguia oferecer “por alma dos que já lá estão”, um rosário completo.

            Dizem que, conta a conta, orava assim:

 

      Avé Maria Cheia de graça,

      O Senhor é convosco,

      ...  ...  ...  ...  ...  ...

      ...  ...  ...  ...  ...  ...

      Agora e na hora da nossa morte e Amena,

 

      Esta é com’à outra,

      Esta é com’à outra,

      Esta é com’à outra,

...  ...  ...  ...  ...  ...

            Padre nosso que estais nos céus...”

 

            O que contava eram a intenção e a intensidade. De resto, uma vez chegada à ermida, algo cansada mas feliz e rosada, logo participava, ainda mais intensamente, num outro terço conduzido pelo próprio Padre Couto com as mais variadas intenções aplicadas a cada mistério.

            No seu hábito de Nossa Senhora do Carmo, na primeira fila, ao centro, a Tia J’aquina quase irradiava luz!

 

P.S. Todos os dias à boquinha da noite, já deitadas, as crianças lá de casa ouviam, vindas dos corredores, preces sussurradas pela Tia J’aquina que as deixavam meio fascinadas meio aterradas:

       “Na hora da minha morte três coisas (vos) quero pedir: a confissão a sufissão ” (absolvissão ) e a cera da Bela Luz. Salvai (-me) “bum Jasus ”.

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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2006

O Concurso

ANA'KRÓNIKA. II 

 

(ANA'KRÓNIKAS são relatos impossíveis de colocar rigorosamente no tempo, retirados da memória, onde jazem sob grossas camadas de fantasia, não sendo, portanto, nem verdadeiros nem falsos...)

 

          Chamava-se “Prata da casa”. Era um concurso televisivo de Raúl

Solnado e Fialho Gouveia a que concorreu uma equipa de Angra do Heroísmo.

         Duas equipas de diferentes distritos apresentavam sucessivas provas a que procuravam dar um cunho muito “localista”. Uma das citadas provas constava de uma entrevista realizada por um elemento da equipa a uma “figura” escolhida por ela.

          Foi-nos dada a sorte de saber do Tio Silveirinha de S. Jorge e logo com os contactos preliminares nos rendemos às potencialidades fabulosas de tal personagem.

          Nos ensaios, no Teatro Vilaret, compareciam alguns elementos do júri das provas que, por levarem aquela tarefa a sério, desejavam observar o que as equipas propunham para o programa. Lembro-me de ver a cara de estupefacção de Maria Elisa ouvindo da boca do Tio Silveirinha, um analfabeto confesso, declamações de cor de páginas inteiras da Bíblia ou de um Atlas de Geografia que o impressionara ao ponto de o levar a viajar e viver como autêntico aventureiro americano em terras da América. Mais perplexidade lhe causavam os comentários e as teorias que o Tio Silveirinha expunha, em linguagem magistral, sobre tais assuntos!

           À preocupação avassaladora do entrevistador, no dia da entrevista, respondia o Tio Silveirinha com tal desenvoltura e oportunidade que arrancava estrondosas salvas de palmas à plateia que assistia, ao vivo, às emissões. Acabaria o Tio Silveirinha, a uma provocação do seu interlocutor, a declamar um poema de sua autoria que acabava assim:

 ...   ...   ...  

          Tanta riqueza que tinha!

Tanto que tinha de seu!

Até parece mentira,

Mas um belo dia morreu.

  

No dia do seu enterro,

Minha avó pôs uma mesa

Para dar, por alma dele.

Convidou toda a pobreza!

  

Cozeu espinhas de peixe

E escamas de morião

E a todos deu um jantar

De sopas d’água sem pão.

 

O mais pobrezinho de todos,

Minha avó por ele chamou,

Para lhe dar o vestido

Por alma de meu avô.

  

Deu-lhe meias e sapatos,

Calças, colete e casaco:

Roupinha nova do trinco

Que não tinha nem um buraco!

 

Um colete de pelúcia,

Riscado de azul e verde,

Que lhe ficava tanto bem

Como o cuspo na parede.

 

Uma camisa de seda,

Mais alva do que a geada,

Que não tinha fralda nem gola

Nem colarinho nem nada,

  

O casaco era azul

Da côr das ondas do mar,

Não tinha fôrro nem mangas

P’ra ter menos que lavar.

  

As calças eram da moda,

Pespontadas a retrós,

Sem alhetas e sem botões,

Sem perneiras e sem cós.

  

Es meias eram de seda

E casca de marmeleiro,

Urdidas com vento norte,

Tapadas com nevoeiro.

  

Sapatos de polimento

Colados com fina cola,

Que eram abertos por cima

E por baixo, não tinham sola.

  

Luvas de pelica fina,

Como luvas de senhora;

Ficava a mão descoberta

E os dedos todos de fora.

  

Fez tudo do melhor pano

(Não foi fazenda grotesca).

O que não deu foi cuecas

Para o tipo andar à fresca.

  

Foram estas as esmolas

Que ela deu por sua alma.

E o que dá esmolas desta

Tem o Céu por santa palma!

 

          Alexandre O’neil, membro do júri, declarou-se emocionadamente maravilhado com tal peça. 

           Ganhámos a eliminatória.

           Ganhámos a amizade muito gostosa do Tio Siveirinha!
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Domingo, 5 de Fevereiro de 2006

Leviatã.

ANA'KRÓNIKA I

(ANA'KRÓNIKAS são relatos impossíveis de colocar rigorosamente no tempo, retirados da memória, onde jazem sob grossas camadas de fantasia, não sendo, portanto, nem verdadeiros nem falsos...)

 

 

NegritoBaleeiro.JPG

 

          Aí por meados dos anos '50, era muito "pechinchinho", o pai levou-me ao Negrito, montado à amazona no varão da bicicleta, protegido nos seus braços. Levou-me a ver o cachalote - que seria o último a ser processado naquele porto baleeiro.

          Era meia-tarde que ía húmida e de densa atmosfera.

          Chegados, fui sentado sobre o muro de onde se podia contemplar  a fantástica cena: o sol ao penetrar penosamente a nablina dourava tudo e criava sombras duras; homens de pé sobre o dorso do monstro trinchavam, com lanças, longas e pesadas tiras de toucinho que deixavam escorregar para o chão onde outros homens com ganchos de ferro as arrastavam rampa acima em direcção aos "traióis"; vozeavam todos, com vozes cavas e de rijo; cheirava a iodo e a baleia. Havia muito suor e muita satisfação...

          De repente a noite começou a descer.

          Na viagem trepidante do regresso a casa senti frio e naquela noite não sonhei com toiros.

         

 

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